Introdução
O Decreto Inter Mirifica, promulgado em 4 de dezembro de 1963 durante o Concílio Vaticano II, abordou os meios de comunicação social e sua relação com a missão da Igreja.
Apesar de sua intenção pastoral e sua valorização dos avanços tecnológicos, o documento contradições à luz da Tradição católica.
Este artigo examina os principais pontos de Inter Mirifica, contrastando-os com o Magistério pré-conciliar e analisando suas consequências para a fé e a moral cristãs.
O “Direito à Informação” e a Centralidade da Opinião Pública
Inter Mirifica introduz o conceito de “direito à informação”, afirmando que os homens têm o direito de conhecer o que convém à sociedade. Além disso, valoriza a influência da opinião pública no mundo moderno.
Essa abordagem contrasta com o ensino tradicional da Igreja, que afirma que apenas a verdade tem direitos, enquanto o erro deve ser restringido. Como diz Leão XIII em Libertas Praestantissimum (1888),
“Não há direito à propagação do erro, pois só a Verdade tem direitos”.
Essa relativização valida a disseminação de informações errôneas, sob o pretexto de liberdade, enfraquecendo a autoridade moral da Igreja.
Otimismo Exagerado Sobre os Meios de Comunicação
O documento manifesta grande confiança no potencial positivo das tecnologias de comunicação, exaltando suas contribuições para o bem-estar humano, ao mesmo tempo em que omite advertências firmes sobre os perigos intrínsecos desses meios.
Ao contrário disso, em Vigilanti Cura (1936), Pio XI advertiu que os instrumentos modernos têm sido usados para corromper as mentes e fomentar a imoralidade.
Esse excesso de otimismo subestima as influências anticristãs presentes na mídia moderna.
Enfraquecimento do Controle Moral e da Censura Eclesiástica
O decreto transfere a responsabilidade moral sobre o consumo de informações para indivíduos e famílias, reduzindo o papel da censura eclesiástica. Ele afirma que os destinatários devem ser moderados e disciplinados no uso dos meios de comunicação.
Isso contrasta com Officiorum ac Munerum (1897), onde Leão XIII declara ser dever da Igreja proteger os fiéis dos perigos espirituais por meio da censura.
Essa redução da vigilância pastoral expõe os fiéis a erros doutrinários e morais.
Diluição da Missão Exclusiva da Igreja
Inter Mirifica convida todos os homens de boa vontade a colaborar no uso dos meios de comunicação para o bem da sociedade humana.
Embora essa proposta pareça nobre, ela dilui a missão exclusiva da Igreja como o único caminho de salvação, conforme ensinado em Syllabus Errorum (Pio IX, 1864):
“Somente a Igreja é o caminho para a salvação”.
Essa colaboração ampla leva ao indiferentismo religioso.
Ambiguidade Sobre a Moralidade da Arte e da Mídia
O documento afirma que a representação do mal moral pode exaltar a verdade e o bem, desde que seja feita com responsabilidade, o que contrasta com Divini Illius Magistri (1929), onde Pio XI condena espetáculos que apresentam o mal moral, mesmo que pretendam promover o bem.
Essa ambiguidade justifica a produção de conteúdos que comprometem a moralidade cristã.
Dependência Econômica e Influência Secular
O decreto incentiva que associações e particulares sustentem generosamente os meios de comunicação social, o que compromete a autonomia da Igreja, que corre o risco de ser influenciada por interesses financeiros.
Pio XI, em Quadragesimo Anno (1931), por outro lado, alertou para a necessidade de administrar os bens temporais com prudência, evitando dependências que comprometam os princípios católicos.
Omissão do Reinado Social de Cristo
Ao tratar da comunicação social, o documento não faz referência explícita ao objetivo maior da Igreja: promover o Reinado Social de Cristo, sendo que, em Quas Primas (1925), Pio XI afirmou que todas as nações devem submeter-se ao domínio de Cristo Rei.
Essa omissão enfraquece a clareza da missão da Igreja.
Ausência de Condenação Direta de Erros
Por fim, o tom de Inter Mirifica privilegia uma abordagem positiva, mas evita condenar explicitamente erros doutrinários e morais, o que contrasta com Divini Illius Magistri, que enfatiza a necessidade de denunciar erros para proteger os fiéis.
A ausência de condenação explícita enfraquece a defesa da verdade e expõe os fiéis a perigos.
Conclusão
Inter Mirifica reconhece o potencial dos meios de comunicação social e tenta integrá-los à missão evangelizadora da Igreja, mas suas ambiguidades e concessões opõe-se à Tradição católica.
A ausência de uma postura firme contra os perigos da mídia moderna e a redução do controle moral pela Igreja indicam a necessidade de revisão dos caminhos adotados.
Este artigo propõe um retorno à precisão doutrinária pré-conciliar, para reafirmar a missão exclusiva da Igreja como guardiã da verdade e promotora do Reinado Social de Cristo.