Aula dada pelo Prof. Juliano Mello, em 09/12/2024.
Introdução
No artigo “Por que conhecer, preferir e defender a Missa Tridentina?”, falamos sobre a teologia que fundamenta a missa, o que ela deveria ser e, de fato, o que é. Refletimos sobre a profundidade da Missa de Sempre, a Missa Tridentina, e como ela expressa a essência do que a missa deve ser: o sacrifício perfeito e contínuo de Jesus Cristo renovado a cada celebração.
Na presente aula, exploraremos o contraponto: a Missa Nova, introduzida há menos de 60 anos e promulgada por Paulo VI em 1969, entrando em vigor em 1970.
Examinaremos como ela contrasta com o rito tridentino e o impacto teológico e litúrgico dessa reforma.
O Sacrifício: O Coração da Missa
No cerne da religião está o sacrifício, um ato de adoração que atravessa toda a história da salvação. Desde os sacrifícios do Antigo Testamento até o sacrifício único, eterno e definitivo de Jesus Cristo, que a Igreja continuamente torna presente na missa.
A Missa Tridentina cristalizou essa verdade teológica, sendo canonizada por São Pio V como expressão definitiva do sacrifício cristão.
Porém, a introdução da Missa Nova trouxe mudanças que questionam essa continuidade. Paulo VI promulgou o chamado Novus Ordo Missae sem revogar explicitamente a Missa Tridentina, mas também sem garantir sua coexistência.
Isso gerou confusão desde o início, agravada pela resistência interna na própria Santa Sé, ainda composta por muitos clérigos tradicionalistas.
A Introdução da Missa Nova
A Missa Nova, introduzida por Paulo VI, trouxe uma série de mudanças litúrgicas significativas. Um dos pontos polêmicos foi o nome dado ao rito: Novus Ordo Missae. O termo pode dar a impressão de que se trata apenas de uma atualização do Ordo Missae, um novo livro litúrgico, mantendo a essência da missa. Contudo, isso não reflete a realidade. Não se trata de uma continuidade entre um rito antigo e um novo, mas de uma transformação radical.
A Missa Nova não é o mesmo ato religioso; seu conteúdo teológico é distinto.
Essa distinção foi amplamente debatida, e um dos críticos mais proeminentes foi o cardeal Alfredo Ottaviani, então Prefeito do Santo Ofício. Ele, junto com outros estudiosos, apresentou a Paulo VI o famoso documento Breve Exame Crítico do Novus Ordo Missae.
Nesse texto, os autores afirmaram que o novo rito se afastava notavelmente da teologia católica tradicional da Santa Missa, tanto em sua totalidade quanto nos detalhes.
Mudanças no Ofertório
Uma das alterações mais drásticas introduzidas na Missa Nova foi a supressão do ofertório tradicional. O ofertório é o momento em que a vítima do sacrifício é apresentada a Deus, estabelecendo o significado do ato litúrgico.
Na Missa Tridentina, orações como Suscipe, Sancte Pater expressam claramente o sacrifício oferecido pelo sacerdote em nome de todos.
Na Missa Nova, o ofertório foi substituído por uma oração chamada Berachot, inspirada na bênção judaica para refeições: “Bendito seja, Senhor, Deus do universo, pelo pão que recebemos da vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano…”
Embora possa ser até apropriada para um contexto familiar, essa oração não expressa o caráter sacrificial da missa, mas sim um agradecimento por uma refeição.
Mudanças no Cânon
Outro ponto de grande controvérsia foi a modificação do cânon, a parte mais sagrada da missa. Na Missa Tridentina, ele é recitado em voz baixa, simbolizando sua natureza sagrada, separada. Na Missa Nova, passou a ser rezado em voz alta, incentivando a participação ativa da assembleia.
Essa mudança é uma dessacralização, que transforma o que era sagrado em algo comum e acessível.
Além disso, a fórmula da consagração sofreu alterações significativas. Na Missa Tridentina, as palavras da consagração são apresentadas como um comando direto, reafirmando o papel do sacerdote como representante de Cristo. Na Missa Nova, a fórmula adota o perfil de uma narrativa, relatando os eventos da Última Ceia, imitando a abordagem luterana de um memorial, ao invés da correta visão católica do sacrifício.
Impactos Teológicos
Essas mudanças impactaram profundamente a teologia da missa. A Missa Nova obscureceu a finalidade propiciatória do sacrifício, ou seja, sua capacidade de expiar os pecados. Elementos como o significado da transubstanciação e a intercessão dos santos foram minimizados ou eliminados, aproximando a liturgia católica de práticas protestantes.
Por exemplo, o uso da aclamação “Anunciamos, Senhor, a Vossa morte…” introduziu uma ambiguidade teológica. Na Missa Tridentina, o sacrifício é claramente renovado e explicitamente referido como propiciatório. Na Missa Nova, falta essa clareza, e as orações enfatizam a ideia de uma refeição comunitária ou memorial.
O Enfraquecimento dos Dogmas
Na Missa Nova, importantes dogmas da fé católica foram minimizados ou, em alguns casos, omitidos. Entre eles:
- O sacrifício propiciatório: A finalidade de expiar os pecados foi obscurecida. As orações que afirmavam essa verdade desapareceram, dando lugar a uma ênfase maior no “memorial” ou na “ceia”.
- A transubstanciação: A linguagem clara sobre a transformação do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo foi substituída por expressões vagas ou narrativas que diluem o significado teológico.
- A virgindade perpétua de Maria: Nossa Senhora não é mais chamada de “sempre Virgem Maria” no cânon, refletindo uma aproximação com a teologia protestante.
- A intercessão dos santos: A menção aos santos foi reformulada, afastando-se do pedido explícito de intercessão e limitando-se a reconhecer o “convívio” deles.
Reflexão e Conclusão
A reforma litúrgica de Paulo VI não foi apenas uma atualização de formas, mas uma transformação que tocou o coração da teologia católica. Elementos centrais da fé foram diluídos ou omitidos, levando a um distanciamento da tradição eclesial.
Como resultado, a Missa Nova se tornou objeto de controvérsia e resistência entre os católicos fiéis à tradição.
Na próxima (e última) aula sobre este tema, aprofundaremos alguns outros aspectos específicos dessa reforma, como a posição do celebrante, a comunhão na mão e outros elementos estéticos e simbólicos. Encerramos hoje pedindo a intercessão de Nossa Senhora para que nos guie na preservação da fé.
Bibliografia
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