Introdução
Comparemos o Ofertório da Missa Tridentina, também conhecida como a Missa de Sempre, e o que se tornou o “Ofertório” na Missa Nova, chamado de “Apresentação das Oferendas”.
Analisemos o significado profundo de cada uma das orações e entendamos por que isso faz uma grande diferença na teologia e na espiritualidade da liturgia católica.
O Ofertório da Missa de Sempre
Primeiro, vejamos o Ofertório da Missa de Sempre, que começa com estas palavras: “Recebei, santo Pai, onipotente e eterno Deus, esta hóstia imaculada…”.
Como se vê, o sacerdote, aqui, não está apenas agradecendo a Deus pelos dons da terra. Ele está oferecendo a Deus um sacrifício: a hóstia imaculada que será imolada.
Essa oração lembra que a Missa é um verdadeiro sacrifício, a renovação incruenta do Sacrifício de Cristo no Calvário, oferecido ao Pai em expiação por nossos pecados. Há uma consciência clara de que o sacerdote age como mediador, na pessoa do único mediador entre Deus e os homens (Nosso Senhor Jesus Cristo), oferecendo a Deus um sacrifício por si mesmo, pelos fiéis ao redor do altar e por todos os vivos e falecidos.
A “Apresentação das Oferendas” na Missa Nova
Agora, comparemos isso com o “Ofertório” da Missa Nova, que foi renomeado como “Apresentação das Oferendas”. A oração é bem diferente: “Bendito sejais, Senhor, Deus do Universo, pelo pão que recebemos da Vossa bondade, fruto da terra e do trabalho humano…”. Ou seja, o foco aqui é a criação e o trabalho humano, e o ato litúrgico parece ser uma simples expressão de agradecimento. Não há menção a nenhum sacrifício iminente. Fala-se de pão e vinho como dons da terra, sem se mencionar nenhuma imolação de nenhuma hóstia, ou seja, de nenhuma vítima. A linguagem sacrificial é totalmente ausente.
A diferença entre uma mera Oferenda e um Sacrifício
Isso nos leva a uma reflexão mais profunda sobre a diferença entre uma mera oferenda e um autêntico sacrifício e, para isso, olhemos para o primeiro ato religioso registrado nas Escrituras, em Gênesis 4, onde Caim e Abel fazem ofertas a Deus.
No relato, Caim oferece os frutos da terra, uma mera oferenda, enquanto Abel oferece uma hóstia imaculada, ou seja, uma vítima inocente, o que resulta num autêntico sacrifício, de algo vivo e sensível.
O resultado? Deus aceita o sacrifício de Abel, mas rejeita a oferenda de Caim, mostrando claramente que se agrada mais de um sacrifício do que de uma mera oferenda, pois o sacrifício demonstra entrega total, e renúncia do dom da vida, que foi o maior que Ele nos deu.
O Ofertório da Missa de Sempre é uma expressão desse sacrifício, mas, por outro lado, o que vemos na Missa Nova é uma oração que se assemelha mais a um
agradecimento de uma refeição, uma mera oferenda, e não um sacrifício.
O problema da mudança no Ofertório
Essa é uma mudança drástica que afeta toda a compreensão teológica do que a Missa realmente é: se a Missa é apenas uma refeição, uma ação de graças pelos dons da criação, perde-se de vista a realidade do Sacrifício Eucarístico — que é o ponto central da fé católica.
É fácil prever o resultado dessa mudança: um Ofertório que perde o sentido de sacrifício deixa de ser um ofertório, e torna a noção sacrifical da oferta incompleta, quando não totalmente ausente. O verdadeiro sacrifício, como o de Abel, é o que agrada a Deus.
Conclusão
Portanto, a diferença entre o Ofertório da Missa de Sempre e a Apresentação das Oferendas da Missa Nova não é apenas uma questão de palavras. É uma questão de entender o que a Missa realmente é: um sacrifício oferecido a Deus em expiação por nossos pecados. Que possamos sempre buscar a verdadeira compreensão da liturgia e lembrar que a Missa não é apenas uma refeição, mas a renovação do sacrifício de Cristo no Calvário.