O deserto como escola de guerra espiritual

Juliano de Henrique Mello By Juliano de Henrique Mello 22 de fevereiro de 2026

O texto abaixo é a transcrição adaptada de sermão proferido pelo Rev. Pe. Wander de Jesus Maia, em São Paulo/SP, em 22/02/2026, I Domingo da Quaresma.


 

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado.

 

Queridos filhos,

Impressiona-nos como, na sua providência santíssima, Nosso Senhor Jesus Cristo escolhe o deserto como cátedra. Ele não sobe a um trono, não convoca multidões; Ele entra no deserto. E ali estabelece uma verdadeira cápsula de guerra — guerra ascética, guerra espiritual.

O deserto é escola de combate. Nosso Senhor vai ao deserto para nos ensinar como enfrentar as reminiscências do pecado original. Deus, em sua sabedoria, não retirou de nós essas marcas. Permanecem a inclinação desordenada, a luta interior, a concupiscência. Não para nos humilhar inutilmente, mas para que nunca esqueçamos que somos pó (cf. Gn 3,19).

Quando o sacerdote impõe as cinzas e diz: “Lembra-te de que és pó”, ele recorda primeiro nossa condição natural, privada da graça. Depois traça o sinal da cruz sobre a fronte, indicando que só a Cruz nos eleva à ordem sobrenatural (cf. Gl 6,14).

A Escritura é clara: “Tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida” (1Jo 2,16). Eis o resumo da desordem humana. A concupiscência da carne é a escravidão aos prazeres sensíveis. A concupiscência dos olhos é a avareza, o apego aos bens temporais. E a soberba da vida é o orgulho, raiz e capitã das outras duas.

Nossa natureza, ferida pelo pecado, tende brutalmente à submissão aos apetites. Se não combatida, a alma torna-se escrava.

Mas atenção: reconhecer o prazer sensível não é pecado. A matéria é boa, porque criada por Deus (cf. Gn 1,31). Negar isso seria cair em erro gnóstico ou maniqueu. Comer com gratidão, reconhecer o sabor do alimento, alegrar-se moderadamente — tudo isso é legítimo. O problema é inverter a ordem: não comer para viver, mas viver para comer; não dormir para restaurar forças, mas viver para dormir; não usar a sexualidade conforme Deus quis, mas transformá-la em fim absoluto.

Há, porém, um sinal profético colocado por Deus no mundo: o celibato consagrado. Nosso Senhor diz: “Há eunucos que se fizeram eunucos por causa do Reino dos Céus” (Mt 19,12). São Paulo afirma: “Quem não é casado cuida das coisas do Senhor” (1Cor 7,32).

O celibato não é mutilação, mas consagração, sinal escatológico, lembrança viva de que o destino último do homem não é este mundo (cf. Mt 22,30). Por isso, o espírito do mundo odeia o celibato: porque ele recorda que existe algo superior à carne.

Nosso Senhor foi claro: “O Reino dos Céus sofre violência, e os violentos o arrebatam” (Mt 11,12). Violência aqui não é brutalidade exterior, mas disciplina interior. Santo Inácio de Loyola, nas Regras de Discernimento (Exercícios Espirituais), ensina que a alma que vai de pecado em pecado é suavemente confirmada pelo demônio em sua tibieza. Ele lhe diz: “Não foi tão grave assim… poderias ter aproveitado mais…”

O remédio? Cortar. Diminuir. Restringir. Um pouco menos de comida. Um pouco menos de descanso. Um pouco menos de lazer. Um pouco menos de consumo.

A civilização moderna vive de vitrines. Vitrines de roupas, de tecnologia, de viagens, de prazeres. Uma “raça de vitrines” torna-se espelho daquilo que contempla.

Nós não esperamos um paraíso terrestre restaurado. A Igreja já condenou o milenarismo. Mas é fato histórico que quando Cristo reinou nas inteligências e nos corações, surgiram catedrais, hospitais, universidades, mosteiros etc. Não se trata de nostalgia ingênua, mas de reconhecer um princípio: quando Deus governa a alma, a ordem se reflete na cultura.

Para esta Quaresma, usemos de três armas. Primeiro, mortificação concreta: redução voluntária e ordenada dos confortos. Segundo, desapego real dos bens temporais (cf. Mt 6,19-21). Terceiro, leitura espiritual séria, e para isso sugiro Prática do Amor a Jesus Cristo (Santo Afonso de Ligório), Preparação para a Morte (idem) e História da Paixão (Pe. Luís de la Palma).

Leiam devagar, meditem e apliquem.

O deserto não é fuga. É treinamento. O demônio foi derrotado quando o Arcanjo bradou: “Quem como Deus?” (Ap 12,7-9). A mesma resposta deve governar nossas potências, inteligência e vontade, ao lidar com os bens temporais.

Quando Deus reina na alma, tudo se ordena. Desprendamo-nos deste mundo fétido, na medida do possível, enquanto ainda temos tempo.

 

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado.

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