Sob dois estandartes: Jerusalém e Babilônia

Juliano de Henrique Mello By Juliano de Henrique Mello 22 de fevereiro de 2026

O texto abaixo é a transcrição adaptada da segunda conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Pe. Wander de Jesus Maia em São Paulo/SP, em 17/02/2026. Leia a anterior aqui e a próxima aqui.


 

Em Nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo. Para sempre seja louvado.

 

Como ensina Santo Inácio de Loyola na meditação dos Dois Estandartes, Cristo Nosso Senhor chama todos a estarem sob o seu estandarte, enquanto Lúcifer reúne os seus sob o dele.

A imagem é clara: Ou estamos em Jerusalém, ou estamos em Babilônia. Jerusalém é a figura da Cidade Santa, da Igreja gloriosa, que desce do céu adornada como esposa (Ap 21,2). Babilônia é o símbolo da cidade da confusão, da rebelião e da corrupção (Ap 17–18).

Não há neutralidade.

Imaginemos um vale vasto, desolado, em chamas. No centro, Lúcifer sentado num trono falsificado, arrogante e dissimulado, dando ordens às suas legiões.

Seu primeiro exército não são os homens, mas os anjos decaídos — aqueles que o seguiram na rebelião descrita no Apocalipse: “Houve uma grande batalha no céu: Miguel e seus anjos combateram contra o dragão” (Ap 12,7).

Esses demônios são enviados para seduzir as almas, uma a uma.

E qual é a primeira armadilha?

São João resume as três concupiscências: “A concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1Jo 2,16).

A primeira é o apego desordenado aos bens temporais. Ninguém dorme em vinte camas numa noite. Ninguém come vinte pratos ao mesmo tempo. “Não podeis servir a Deus e às riquezas” (Mt 6,24).

O problema não é possuir, mas apegar-se. São Paulo ensina: “Os que usam deste mundo, como se dele não usassem” (1Cor 7,31). Quanto mais se tem, mais virtuoso é preciso ser. São Luís IX, rei da França, governava como monarca, mas vivia com espírito de penitência e temperança. O poder não o possuía; ele possuía o poder para ordenar tudo ao fim último, porque “se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a constroem” (Sl 126,1).

Nosso Senhor chama todos a uma decisão radical: “Quem não renuncia a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo” (Lc 14,33). A caridade consumada é morrer por Deus: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Mas não se começa pelo martírio heroico. Começa-se pelas pequenas fidelidades. Se não se pratica o essencial, como se chegará ao heroico?

Jerusalém é a cidade ordenada, onde os bens são usados sem escravidão. Babilônia é o vale da ilusão, onde tudo parece brilho e termina em cinza.

Não confundamos. Sofrer por imprudência não é sofrer por Cristo. Sofrer consequência do pecado não é martírio. A dor dos santos é participação na dor do Cordeiro: “Completo na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo” (Cl 1,24). E a lamentação do Cordeiro ecoa: “Ó vós todos que passais pelo caminho, vede se há dor semelhante à minha” (Lm 1,12).

A verdadeira dor une a Cristo. A falsa dor é fruto da própria desordem.

O grande projeto de Lúcifer não é necessariamente tornar as almas escandalosamente perversas — mas mornas. “Porque és morno… vomitar-te-ei da minha boca” (Ap 3,16). A mornidão é o catolicismo burguês, acomodado, sem combate, sem penitência, sem cruz.

Nosso Senhor foi claro: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mt 16,24). Sem cruz, não há discipulado.

Cristo olhou para os fariseus e disse: “Vós tendes por pai o demônio” (Jo 8,44). Ele não buscou ser palatável. Ele anunciou a verdade. Diante de Pilatos, foi proclamado: “Ecce Homo” — “Eis o Homem” (Jo 19,5). Pilatos não sabia que anunciava um dogma.

A fidelidade custa. Mas a infidelidade custa eternamente: “Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno” (Mt 25,41).

A santidade não nasce de sentimentalismos, mas da graça infusa. O Batismo sempre foi cercado por exorcismos e ritos solenes. A absolvição tradicional exprime com clareza misericórdia, indulgência e remissão. Nada na Igreja era supérfluo. Tudo sempre foi ordenado a avolumar a graça, porque: “Recebemos todos da sua plenitude, graça sobre graça” (Jo 1,16).

Não se vive espiritualmente com “30%”. Ninguém respira com 30% de oxigênio. Ou se vive na plenitude da graça, ou se sufoca.

A Igreja é militante. “Militia est vita hominis super terram” — “A vida do homem sobre a terra é combate” (Jó 7,1). Não existe neutralidade.

No dia 1º de julho, novos sucessores dos Apóstolos serão consagrados. A Igreja continua. Cristo não abandona o seu estandarte.

Nossa Senhora de Guadalupe declarou: “Eu sou a Mãe do verdadeiro Deus por quem se vive.” A escolha está diante de nós. Jerusalém ou Babilônia. Estandarte de Cristo ou trono falsificado.

Que não sejamos mornos. Que não temamos perder os cadáveres do mundo para ganhar a vida eterna. “Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados” (Mt 5,5).

Que combatamos sob o estandarte do Divino Salvador. E que, quando Ele voltar em glória, possamos ouvir: “Vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25,34).

Amém.


 

Índice das conferências deste Retiro

 

  1. A guerra espiritual é real – e começa em nós;
  2. Sob dois estandartes: Jerusalém ou Babilônia;
  3. Salvação e adoração: os dois lados da cruz;
  4. Perseverar até o fim.

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