Salvação e adoração: os dois lados da Cruz

Juliano de Henrique Mello By Juliano de Henrique Mello 22 de fevereiro de 2026

O texto abaixo é a transcrição adaptada da terceira conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Pe. Wander de Jesus Maia em São Paulo/SP, em 17/02/2026. Leia a anterior aqui e a próxima aqui.


 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.

 

A imagem que resume esta conferência é simples e profunda: os dois lados do galho do Redentor — a salvação e a adoração.

A Cruz de Cristo não é apenas instrumento de redenção. É também trono de adoração. Ela não é somente remédio para o pecado; é altar onde Deus é glorificado.

O homem moderno quer a salvação, mas sem adoração. Quer os frutos da Redenção, mas não o sacrifício. Quer a misericórdia, mas não a reverência. Mas a lógica do Evangelho é outra: “Se alguém quer vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me” (Mt 16,24).

A Cruz é inseparavelmente expiação e culto. Cristo salva porque se oferece. E se oferece porque adora o Pai (cf. Hb 9,14).

A referência ao livro de Jó recorda-nos que a vida cristã é marcada pela provação: “O Senhor deu, o Senhor tirou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1,21). Jó não apenas suportou. Ele adorou. No meio da perda, manteve a reverência.

Eis o ponto central: a verdadeira fé não se mede pela ausência de sofrimento, mas pela perseverança na adoração em meio à dor.

O Catecismo ensina que a adoração é o primeiro ato da virtude da religião. Santo Tomás afirma que a religião ordena o homem a Deus como ao seu fim último.

Sem adoração, a salvação torna-se um conceito abstrato. Sem sacrifício, a fé degenera em sentimento.

Vivemos numa época que deseja redenção sem conversão. Cristianismo sem penitência. Missa sem sacrifício. Fé sem temor de Deus. Mas a Tradição constante da Igreja ensina que a salvação passa pela Cruz.

A liturgia tradicional expressa isso com clareza: o altar é Calvário. Não é assembleia centrada no homem, mas sacrifício oferecido a Deus.

A adoração precede tudo: “Ao Senhor teu Deus adorarás, e só a Ele servirás” (Mt 4,10).

Invocar Nossa Senhora das Dores não é sentimentalismo. É reconhecer que, ao pé da Cruz, ela adorou no sofrimento. Ela não compreendia tudo. Mas permanecia.

A fidelidade mariana é modelo para nós: permanecer quando dói, crer quando tudo parece ruir, adorar quando a lógica humana falha.

Se quisermos sair deste retiro verdadeiramente transformados, devemos abraçar os dois lados do madeiro: buscar a salvação com seriedade, por meio da graça, dos sacramentos e da conversão (cf. Jo 3,5), e restaurar a adoração em nossa vida, pelo silêncio, pela reverência e pelo espírito de sacrifício.

Sem adoração, a fé seca. Sem Cruz, não há Ressurreição (cf. Lc 24,26). O cristianismo não é conforto emocional, mas entrega, culto, fidelidade.

Que este retiro nos devolva o essencial: o temor de Deus, o amor à Cruz e a perseverança na adoração.

 

Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.


 

Índice das conferências deste Retiro

 

  1. A guerra espiritual é real – e começa em nós;
  2. Sob dois estandartes: Jerusalém ou Babilônia;
  3. Salvação e adoração: os dois lados da cruz;
  4. Perseverar até o fim.

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