Oração mental: caminho seguro de crescimento espiritual

Juliano de Henrique Mello By Juliano de Henrique Mello 22 de fevereiro de 2026

O texto abaixo é a transcrição adaptada da quinta e última conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Padre Françoá Costa em São Paulo/SP, em 14/02/2026. Leia a anterior aqui.


 

A última conferência deste retiro foi dedicada a um meio eficacíssimo para o crescimento na vida espiritual: a oração mental.

A reflexão parte de uma frase célebre de Santa Teresa de Jesus, doutora da oração, que dizia: “Quem não faz um pouco de oração mental todos os dias não precisa de demônios que o levem ao inferno; vai sozinho.” É uma afirmação forte — mas profundamente verdadeira. A oração mental é vital para a perseverança cristã.

Para compreender como fazer oração mental, é preciso olhar primeiro para a atitude da Virgem Maria. O Evangelho diz que ela “conservava todas estas coisas, meditando-as no seu coração” (Lc 2,19; cf. Lc 2,51). Essa expressão revela uma disposição interior: guardar, ponderar, ruminar os acontecimentos à luz de Deus.

Maria escutava o Verbo Encarnado. Nós temos acesso às palavras do Verbo feito carne por meio da Sagrada Escritura. É aí que começa a nossa meditação.

Os Padres da Igreja — santos, doutos e antigos (até o século VIII) — dedicaram-se intensamente à meditação da Escritura. Basta ler Santo Agostinho ou São João Crisóstomo para perceber como seus sermões eram comentários contínuos aos textos bíblicos.

A prática da homilia — exposição direta do texto sagrado — nasce dessa tradição. A Igreja, inclusive no breviário tradicional, oferece textos patrísticos que ajudam o sacerdote a contemplar antes de pregar.

Como dizia Santo Tomás de Aquino, citando o ideal dominicano: Contemplari et contemplata aliis tradere — contemplar e transmitir aos outros o que foi contemplado.

A pregação deve ser superabundância da vida interior.

Os Padres falavam em ruminar a Escritura. A imagem é simples: como o animal que mastiga novamente o alimento, o cristão retorna ao texto, considera, aprofunda, saboreia.

No início do cristianismo, meditar significava exatamente isso: meditar os profetas e os apóstolos. A partir dessa meditação surgiam lições práticas para a vida espiritual.

Com o fim das perseguições, muitos cristãos, que sabia que agora a época dos mártires havia passado, desejaram encontrar outra forma de viver uma entrega radical a Deus. Surgiu então o movimento monástico, com figuras como Santo Antão do Deserto e São Bento.

Os monges rezavam, trabalhavam e guardavam silêncio. Decoravam trechos dos salmos e os repetiam constantemente. Dessa meditação brotava uma oração contínua.

O canto gregoriano — que se desenvolve organicamente na Igreja latina desde os primeiros séculos — nasce nesse ambiente contemplativo. Ele não é mero ornamento estético: é Palavra de Deus cantada e meditada.

A fé vem pelo ouvido (Rm 10,17). A escuta forma a alma.

Com o tempo, surgem métodos mais estruturados, como os propostos por Santo Inácio de Loyola e por Santo Afonso Maria de Ligório. Esses métodos ajudam, mas não são essenciais. O essencial é

  1. Colocar-se na presença de Deus;
  2. Ler um breve texto (preferencialmente da Escritura);
  3. Compreender o que o texto diz;
  4. Aplicá-lo à própria vida;
  5. Tirar um propósito concreto;
  6. Conversar com Deus;
  7. Encerrar com uma oração vocal.

O método pode variar; a substância não.

Uma palavra pode ocupar meia hora de oração. Pode-se passar meses meditando poucos versículos da Paixão. Cada expressão abre horizontes: contexto histórico, significado espiritual, aplicação concreta.

A meditação não tem pressa. Ela não é corrida; é permanência.

A meditação deve gerar frutos práticos. Exemplo: ao meditar sobre a necessidade de escutar mais do que falar (cf. Tg 1,19), percebe-se o hábito de interromper os outros. Surge então um propósito: “Hoje não interromperei ninguém antes que termine de falar.” No dia seguinte, outro propósito. Através de pequenos atos concretos, a vida vai sendo transformada.

A oração mental:

  • ilumina a consciência;
  • purifica as paixões;
  • fortalece a vontade;
  • equilibra os afetos;
  • ordena a inteligência;
  • estabiliza o ânimo.

O corpo começa a refletir a ordem interior. Como disse Nosso Senhor: “A boca fala da abundância do coração” (Mt 12,34). O exterior manifesta o interior. O católico reza o terço, vai à missa — e isso é excelente. Mas raramente faz oração mental. E, no entanto, a meditação é uma das orações mais saborosas e fecundas.

Não precisamos de técnicas orientais nem de “meditação transcendental”. A Igreja tem uma tradição riquíssima de oração contemplativa, de São João da Cruz a Santa Teresinha do Menino Jesus.

Para começar: 10 a 15 minutos por dia, um texto breve, silêncio, propósito concreto. Se possível, diante do Santíssimo Sacramento. Se não, em casa, num pequeno oratório, conforme Mt 6,6.

Com o tempo, a alma desejará mais.

A oração mental reconstrói o homem interior. Ela integra graça, virtudes e dons. Conduz da purificação à iluminação e à união. Ordena a vida. Equilibra a alma. Aproxima dos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5).

Por isso, é preciso praticá-la. Não complicar. Não adiar. Dez minutos hoje. Amanhã, talvez quinze. E, pouco a pouco, a alma começará a viver verdadeiramente na presença de Deus.


 

Índice das conferências deste Retiro

 

  1. A vida interior;
  2. A vida espiritual e o crescimento nas virtudes;
  3. A viagem, a graça e o crescimento na vida espiritual;
  4. As três idades da vida espiritual;
  5. Oração mental: caminho seguro de crescimento espiritual

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