A viagem, a graça e o crescimento na vida espiritual
O texto abaixo é a terceira conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Padre Françoá Costa em São Paulo/SP, em 14/02/2026. Leia a anterior aqui e a próxima aqui.
Nós somos como viajantes que entram em um trem de alta velocidade. O trem é confortável, há alimento, há descanso. A viagem pode durar horas. Ele pára em algumas estações; vemos pessoas descendo. Mas ainda não chegou a nossa vez. E, se não prestarmos atenção, podemos até esquecer que estamos viajando.
Assim é a vida humana. A cada parada alguém “desce do trem”: alguém morre. A viagem terminou para aquela pessoa. A nossa continua — por enquanto. Mas chegará também o nosso momento.
Essa imagem recorda uma verdade que muitas vezes evitamos: todos morreremos (cf. Hb 9,27). E não sabemos quando. Se o trem é a vida, podemos dizer, com propriedade teológica, que ele é também a Santa Igreja, a barca de Pedro, que nos conduz com os meios da salvação: a Palavra, os sacramentos, a graça. Ela nos alimenta enquanto viajamos.
Mas podemos nos distrair. Podemos viver como se não estivéssemos a caminho da eternidade. E isso é perigoso.
É urgente decidir-se por uma vida espiritual autêntica. Não sabemos quando desceremos do trem. Santa Teresa d’Ávila falava dessa “determinada determinação” de viver verdadeiramente para Deus.
No caminho da perfeição, precisamos aperfeiçoar as duas grandes potências da alma espiritual: inteligência e vontade (cf. S. Tomás de Aquino, S.Th., I, q. 79). E aqui entram os dons do Espírito Santo.
Os dons aperfeiçoam as virtudes infusas. Eles tornam a alma dócil às moções do Espírito Santo (cf. Catecismo de Trento, Parte III, cap. 1).
Os primeiros dons são aqueles que aperfeiçoam a inteligência. Ela é elevada pela virtude teologal da fé. Já não é apenas natural: foi iluminada sobrenaturalmente.
O dom do entendimento permite penetrar nas verdades reveladas. Santo Tomás de Aquino é exemplo luminoso desse dom. O dom da sabedoria julga as coisas divinas, e está profundamente ligado à caridade. É um “saborear” as coisas de Deus. O dom da ciência julga retamente as coisas criadas, vendo nelas vestígios de Deus. O verdadeiro São Francisco de Assis contemplava a criação como reflexo da Causa primeira (“Louvado seja, Senhor, pelo Irmão Sol e pela Irmã Lua!”). O dom do conselho orienta nossas ações concretas, e está ligado à prudência.
Esses dons se articulam com as virtudes teologais: fé, esperança e caridade. Não são peças soltas; formam um organismo espiritual. Santo Agostinho dizia: “As virtudes ou existem todas juntas ou não existem.” Não podem ser desarmonizadas, como membros deformados de um corpo.
Agora, os dons que aperfeiçoam a vontade. A vontade também é elevada. O dom da piedade nos ordena ao culto devido a Deus. O dom da fortaleza nos fortalece contra o medo do perigo. O dom do temor de Deus nos afasta do pecado. O temor filial não é pânico servil, mas reverência amorosa que impede a ofensa (cf. Pr 8,13).
Estamos nesse trem rumo à eternidade. Como cresce a vida espiritual? Por três meios principais: mérito, oração e sacramentos.
O mérito pressupõe a graça santificante. O Concílio de Trento ensina claramente que o justo, movido pela graça, pode verdadeiramente merecer aumento de graça e vida eterna. No protestantismo clássico, o homem permaneceria totalmente corrompido; não poderia merecer nada. A graça seria apenas extrínseca. Mas a doutrina católica ensina que a graça transforma interiormente, santifica a alma. A graça santificante é chamada gratia gratum faciens: ela nos torna agradáveis a Deus. Por isso, as boas obras feitas em estado de graça merecem recompensa. Sem graça, não há mérito.
Aqui há uma dimensão de justiça porque Deus quis assim. Ele prometeu recompensar. A Paixão de Cristo mereceu nossa redenção “ex toto genere iustitiae” — por plena justiça. E Ele quis associar os membros ao mérito da Cabeça.
O pecado mortal destrói a caridade. Mas, pela confissão e pelo arrependimento, a alma pode não apenas recuperar, mas crescer ainda mais, se houver contrição perfeita. O arrependimento por amor pode elevar a alma de modo extraordinário.
A oração não exige previamente o estado de graça para ser feita. Mesmo em pecado mortal, deve-se rezar. A oração não merece enquanto falta a graça, mas dispõe ao arrependimento. Por isso, abandonar a oração após cair é erro grave.
A oração é encontro com a misericórdia.
Quanto aos sacramentos, aqui entra o aspecto objetivo. Eles operam ex opere operato (cf. Concílio de Trento). O efeito vem da ação de Cristo, não da santidade do ministro.
Confissão e Eucaristia são centrais. A confissão frequente purifica imperfeições. A comunhão bem feita pode elevar à santidade — dizia São João Maria Vianney. Mas há comunhões com atos de caridade “remissos”, fracos. Não são necessariamente sacrílegas, mas pouco fervorosas, e portanto pouco frutuosas.
São Paulo escreve: “A noite vai avançada, o dia se aproxima” (Rm 13,12). A vida presente é noite. O céu é dia. Provérbios 4,18 diz: “O caminho dos justos é como a luz da aurora que cresce até o pleno dia.”
O domingo é o Dies Domini, antecipação escatológica. Não desertemos das assembleias (cf. Hb 10,25).
É preciso recuperar: exame de consciência sério, contrição verdadeira e propósito firme. Na confissão de pecados veniais, vale a pena insistir naquele que mais humilha o orgulho. Isso purifica a alma profundamente.
Na comunhão, devemos nos preparar, corporal e espiritualmente, fazer ação de graças prolongada, e praticar atos fervorosos de caridade. No momento da comunhão, nada mais importa: só Deus e a alma.
Temos de ter espírito de infância. O mérito deve ser vivido como criança que deseja agradar o Pai. Não como capricho, mas como amor filial.
Estamos viajando. O trem continua, mas chegará nossa estação. O crescimento na graça se dá pelo mérito, pela oração e pelos sacramentos. Cada um desses pontos merece exame pessoal.
Nossa Senhora, cheia de graça (Lc 1,28), modelo perfeito da alma santificada, nos ajude a crescer harmoniosamente nesse organismo espiritual até o pleno dia da eternidade.
Índice das conferências deste Retiro
- A vida interior;
- A vida espiritual e o crescimento nas virtudes;
- A viagem, a graça e o crescimento na vida espiritual;
- As três idades da vida espiritual;
- Oração mental: caminho seguro de crescimento espiritual.
