A vida espiritual e o crescimento nas virtudes

Juliano de Henrique Mello By Juliano de Henrique Mello 22 de fevereiro de 2026

O texto abaixo é a transcrição adaptada da segunda conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Pe. Françoá Costa, em São Paulo/SP, em 14/02/2026. Leia a anterior aqui e a próxima aqui.


 

Continuamos o nosso retiro espiritual sublinhando a importância do silêncio, sobretudo o silêncio interior.

Se falamos de vida espiritual, precisamos começar pela vida. E a vida espiritual pressupõe o estado de graça. Quem está em pecado mortal não possui vida espiritual — possui morte espiritual (cf. 1Jo 3,14). A graça santificante é o princípio vital da alma. É ela que estrutura o organismo sobrenatural e coloca no núcleo da alma as virtudes teologais: fé, esperança e caridade.

Podemos ilustrar isso como uma escala: abaixo de zero, a morte espiritual; no zero, ausência de pecado mortal; acima, o crescimento.

Ou seja, não basta sair do pecado mortal: é preciso subir.

Santa Teresa de Jesus descreve esse crescimento nas sete moradas do Castelo Interior. São Paulo fala do “terceiro céu” (2Cor 12,2). A Tradição sempre ensinou que há graus de crescimento na vida espiritual e, correspondentemente, graus de glória no céu. A glória essencial é comum a todos: ver a Deus face a face (cf. 1Cor 13,12). Mas há graus de glória acidental. Cada um recebe segundo a capacidade que formou aqui na terra. Como ensina Nosso Senhor: “A cada um será dado segundo as suas obras” (Mt 16,27).

No Batismo recebemos a graça santificante e as virtudes teologais. Mas, no início, elas estão como que em estado embrionário. É preciso exercê-las. A alma se dilata por atos de fé, esperança e caridade. Pela repetição dos atos, forma-se o hábito estável — a virtude. Como ensina Santo Tomás, a virtude é uma “disposição estável para o bem”.

A Igreja, ao examinar a santidade de alguém, analisa precisamente a prática heroica das virtudes. Fala-se de virtudes heroicas porque a santidade não é mediocridade equilibrada, mas firmeza extraordinária no bem.

As virtudes morais — prudência, justiça, fortaleza e temperança — podem existir de duas maneiras: adquiridas (pela repetição de atos) e infusas (quando elevadas pela graça). Os pagãos podem possuir virtudes morais adquiridas, mas lhes falta a ordenação sobrenatural ao fim último. A pobreza filosófica de Crates de Tebas não é a mesma de São Francisco de Assis. Embora ambas sejam pobrezas, interiormente são radicalmente distintas.

É fundamental evitar as falsas virtudes. Nosso Senhor denunciou os fariseus como “sepulcros caiados” (Mt 23,27). A falsa humildade é soberba disfarçada. A verdadeira virtude é difficile mobilis: dificilmente movível. A virtude não é apenas fazer um ato bom; é tornar-se bom. Pela repetição dos atos, a pessoa se transforma. Não apenas pratica paciência — torna-se paciente.

A Tradição ensina que a virtude é o justo meio entre extremos viciosos. Entre a impiedade e a superstição está a verdadeira religião. Mas esse meio não é mediocridade, mas ponto alto, o equilíbrio perfeito. A virtude da religião consiste em dar a Deus o culto que lhe é devido.

Existe prudência meramente humana e prudência sobrenatural. A prudência humana julga segundo circunstâncias e cálculos. A prudência sobrenatural é ação de Deus na razão prática, orientando-a retamente ao fim último. Quando Deus a infunde, ela ultrapassa cálculos humanos e conduz ao que realmente preserva a fé e a Tradição, como está acontecendo agora com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e suas sagrações episcopais anunciadas.

As virtudes teologais são totalmente sobrenaturais. Deus é espírito (Jo 4,24). Nele há inteligência e vontade. O Pai gera o Filho por ato de inteligência (cf. Jo 1,1); o Pai e o Filho expiram o Espírito Santo por ato de amor.

Pela fé participamos, de modo criado, dessa verdade eterna. Pela caridade participamos do amor eterno entre o Pai e o Filho (cf. Rm 5,5). Por isso não podemos expor a fé a perigos. São Paulo adverte contra “outro evangelho” (Gl 1,8).

A esperança se apoia nos meios da graça, sobretudo nos sacramentos. A caridade atinge seu ápice na participação no sacrifício da Missa, renovação incruenta do sacrifício da Cruz. E nosso caminho na direção disso tudo começa pela fé.

O desenvolvimento das virtudes teologais conduz à contemplação infusa. Como ensina Garrigou-Lagrange, a contemplação não é privilégio extraordinário, mas desenvolvimento normal da fé viva. É quando a fé amadurece a tal ponto que a alma é absorvida por Deus mesmo nas tarefas ordinárias. Mas isso nunca dispensa os deveres de estado. A santidade exige harmonia entre virtudes humanas e sobrenaturais. Cristo é perfeito Deus e perfeito homem. Igualmente, o cristão deve buscar perfeição nas coisas divinas e nas humanas.

O progresso espiritual exige autoconhecimento. O exame de consciência não deve considerar apenas pecados, mas também virtudes: prudência, justiça, fortaleza, temperança, fé, esperança, caridade, e também humildade. Sem esse exame diário, a vida espiritual estagna. A santidade é crescimento contínuo nessas virtudes, sob a ação da graça. É estabilidade, equilíbrio e dilatação da alma para Deus.

Que o Senhor nos conceda crescer nesse caminho, até que possamos participar plenamente daquilo que agora apenas vemos “como em espelho” (1Cor 13,12).


 

Índice das conferências deste Retiro

 

  1. A vida interior;
  2. A vida espiritual e o crescimento nas virtudes;
  3. A viagem, a graça e o crescimento na vida espiritual;
  4. As três idades da vida espiritual;
  5. Oração mental: caminho seguro de crescimento espiritual.

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