A vida interior
O texto abaixo é a transcrição adaptada da primeira conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Padre Françoá Costa, em São Paulo/SP, em 13/02/2026. Leia a próxima aqui.
Neste retiro, eu vou falar sobre vida espiritual, sobre vida interior.
Vai ser bem espiritual mesmo. Esta primeira conferência é para estruturar a nossa própria vida espiritual. Amanhã, na segunda conferência do retiro, vamos falar sobre a relação entre virtudes morais e virtudes teologais, porque não é possível crescer em santidade sem crescer em virtudes. A terceira conferência será sobre o crescimento na graça de Deus — pelo mérito, pela oração e pelos sacramentos. A quarta tratará das três etapas da vida espiritual: purificação, iluminação e união. E, por fim, a última conferência será prática: como fazer meditação, como fazer oração mental.
A base deste retiro é o famoso livro As Três Idades da Vida Interior, do Pe. Garrigou-Lagrange. Um tratado imenso. Só o primeiro tomo já assusta. Mas é uma obra sólida, profundamente enraizada em Santo Tomás de Aquino, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz.
Muitas vezes falamos da crise da Igreja, dos problemas da Igreja Católica. É importante falar disso. Mas vamos, por um momento, deixar isso de lado. Mais importante do que analisar a crise é crescer na vida espiritual. Porque, se tivermos muitos santos, isso será uma contribuição real para a superação da crise.
Os grandes mestres da vida espiritual são Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. A espiritualidade carmelita moldou profundamente a espiritualidade católica. Hoje, porém, há uma tendência de reduzir tudo à “pequena via” de Santa Teresinha. Ela é uma grande santa, mas é preciso entender que ela viveu profundamente a espiritualidade de Teresa e João da Cruz antes de receber o acréscimo da “pequena via”. O problema é que acabamos ficando só com o lado afetivo: “Jesusinho do meu coraçãozinho”, “oraçãozinha”, “fézinha”, “humildadezinha” etc.
Esse diminutivo não constrói a vida espiritual.
A vida espiritual começa com a purificação. Começa-se arrancando as ervas daninhas. No Batismo, Deus arranca o pecado original. Depois, ao longo da vida, vai arrancando os pecados mortais, depois os veniais, depois as inclinações desordenadas.
O começo da sabedoria é o temor do Senhor. Não se entra direto na sala do rei. Primeiro passa-se pelos servos. Aproxima-se pouco a pouco. Não é “eu e Jesus do meu coraçãozinho” logo de início. Há caminho, purificação e combate.
Todos nós temos vida interior. Todos. Qualquer ser humano. Às vezes estamos andando pela rua e estamos conversando conosco mesmos. Há um diálogo interior constante. Isso já é vida interior. Mas, quando essa conversa é elevada pela graça, deixa de ser diálogo consigo mesmo e torna-se diálogo com Deus.
A vida espiritual é essa conversa interior elevada à dimensão sobrenatural.
O homem é composto de corpo e alma. A morte é a separação dos dois. A alma humana é espiritual. Diferentemente da alma vegetal das plantas, e da alma sensitiva dos animais, a alma humana realiza duas operações espirituais: entender (inteligência) e amar (vontade). A inteligência conhece a verdade, e a vontade ama o bem.
Essas são faculdades da alma. Não são a alma em si.
A alma subsiste após a morte. É a alma que vai para o céu ou para o inferno. O corpo ressuscitará. Mas a eternidade da pessoa será determinada pela alma. Vivemos numa cultura obcecada pelo corpo, com academias e farmácias em cada esquina. Mas precisamos de uma teologia da alma, porque se ela for bela, o corpo será belo na glória. Mas se a alma for feia, o corpo ressuscitará para a condenação.
A verdadeira academia é a igreja. É onde se exercita a alma.
Quando recebemos a graça santificante, ela habita no núcleo da alma. E dessa graça derivam as virtudes teologais: fé (na inteligência), caridade (na vontade), esperança (sustentando ambas). Forma-se em nós um verdadeiro organismo sobrenatural.
Existe uma maneira natural de viver: corpo, alma, inteligência e vontade. E existe uma maneira sobrenatural: graça, fé, esperança e caridade.
Nós não produzimos a graça, não fabricamos a fé e não aumentamos a caridade por nossa própria força. Tudo isso é sobrenatural. Podemos rezar, fazer penitência e sacrificar-nos — não para fabricar graça — mas para nos tornarmos mais dóceis, dispondo-nos a recebê-las de Deus, que é quem as dá e é quem as aumenta.
Os santos eram dóceis, generosos, perseverantes. São Francisco de Sales passou uma noite em cima de uma árvore, fugindo de um lobo, e no dia seguinte começaram as conversões que resultariam em 72 mil almas reconduzidas à fé.
Deus trabalha, mas nós precisamos subir na árvore. O esforço é nosso, mas a graça é Dele.
Durante este retiro, precisamos treinar a inteligência, para viver mais de fé, e a vontade, para viver mais de caridade.
Precisamos de silêncio. O silêncio é a porta da vida espiritual. Peçamos a Nossa Senhora, modelo perfeito de docilidade à graça, que nos ensine a abrir a alma a Deus.
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