Perseverar até o fim
O texto abaixo é a transcrição adaptada da quarta e última conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Pe. Wander de Jesus Maia em São Paulo/SP, em 17/02/2026. Leia a anterior aqui.
Em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo. Amém.
Nesta quarta conferência do Retiro de Carnaval de 2026, retomo a condução espiritual do retiro com um foco claro: a perseverança.
O caminho espiritual não se resume a um entusiasmo passageiro, mas exige constância, fidelidade e vigilância. A meta não é apenas viver um momento de fervor, mas consolidar uma decisão firme diante de Deus.
Ainda que a última apresentação tenha como meta clara conduzir à perseverança, quero acrescentar algumas notas sobre a situação do pecador.
Aqui introduzo um ponto central: a realidade do pecado e a condição concreta da alma humana. Não se trata de uma reflexão abstrata, mas profundamente pastoral.
A condição do pecador é algo que nos é muito caro e muito próximo. Não falamos de “pecadores” como uma categoria distante — falamos de nós mesmos. A Escritura é clara: “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos” (1Jo 1,8).
A consciência da própria miséria não deve levar ao desespero, mas à humildade. É precisamente no reconhecimento da própria fragilidade que começa a verdadeira conversão (cf. Sl 50/51).
Evoco o modelo do sacerdote verdadeiro, que cuida das almas com zelo e entrega, mesmo em grau extremo de exaustão. Trata-se de uma imagem fortemente evangélica: “O bom pastor dá a vida por suas ovelhas” (Jo 10,11). O sacerdote, como alter Christus, não vive para si. Sua missão é conduzir, advertir, sustentar, absolver, orientar. Mesmo quando a saúde falha, mesmo quando o corpo fraqueja, o zelo pelas almas permanece.
Por vezes, Deus permite a enfermidade como instrumento de purificação e de aprofundamento interior: “Porque a quem o Senhor ama, Ele corrige” (Hb 12,6). A doença, longe de ser mero castigo, pode tornar-se meio de aproximação maior com Deus, de escuta mais profunda da consciência, de compreensão mais clara dos desígnios divinos.
Há aqui um ponto particularmente forte: Deus utiliza inclusive a fraqueza física para falar ao coração. Isso ecoa a doutrina tradicional sobre a Providência divina: nada escapa ao governo de Deus (cf. Mt 10,29-31). Mesmo aquilo que nos parece apenas sofrimento pode ser instrumento de santificação. São Francisco de Sales ensinava que devemos “amar a vontade de Deus em todas as coisas”, especialmente naquelas que não escolhemos.
O retiro, portanto, não termina em emoção, mas em decisão. A perseverança passa por aceitarmos nossa própria condição, confessarmos com sinceridade e frequência, sermos fieis aos nossos deveres de estado, e confiarmos na Providência.
A perseverança não é automática. É graça que deve ser pedida. “Aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 24,13). Não basta começar bem. É preciso continuar. E continuar muitas vezes significa permanecer fiel na rotina, na doença, na fraqueza, no silêncio.
Decidamos concretamente: sair do retiro não apenas consolados, mas determinados. Perseverar, confessar, combater e confiar.
Porque o cristão não vive de momentos — vive de fidelidade.
Amém.
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