As três idades da vida espiritual

Juliano de Henrique Mello By Juliano de Henrique Mello 22 de fevereiro de 2026

O texto abaixo é a transcrição adaptada da quarta conferência do Retiro de Carnaval ministrado pelo Rev. Padre Françoá Costa em São Paulo/SP, em 14/02/2026. Leia a anterior aqui e a próxima aqui


 

Classicamente, a tradição espiritual cristã fala das três idades da vida interior: purificação, iluminação e união. Essa distinção não é uma invenção moderna, tampouco exclusiva do Pe. Réginald Garrigou-Lagrange, mas um esquema antiquíssimo, presente já nos Padres da Igreja.

Um exemplo notável encontra-se em São Gregório de Nissa, especialmente na obra Sobre a Vida de Moisés. Nela, o santo apresenta, primeiro, a narrativa histórica da vida de Moisés; depois, extrai as lições espirituais da trajetória do profeta.

Ali já aparece, de forma estruturada, o itinerário espiritual em três etapas: purificação, iluminação e união.

Mais tarde, Réginald Garrigou-Lagrange sistematiza essa tradição em sua obra As Três Idades da Vida Interior, retomando esse mesmo esquema clássico.

Também se pode expressar essas etapas de outra forma: iniciantes (via purgativa), proficientes (via iluminativa) e perfeitos (via unitiva).

No século XVI, Santa Teresa de Jesus desenvolve essa mesma doutrina nas Sete Moradas do Castelo Interior, aprofundando e detalhando as etapas da vida espiritual. Já São João da Cruz mantém o esquema tradicional das três vias, enriquecendo-o com sua análise das purificações ativa e passiva, especialmente na obra Subida ao Monte Carmelo.

No fundo, todos falam da mesma realidade: o caminho da alma rumo à união com Deus.

Para compreender melhor esse processo espiritual, é útil recordar a teoria clássica do conhecimento segundo Aristóteles e Santo Tomás de Aquino.

Segundo essa tradição: “Nihil est in intellectu quod non prius fuerit in sensu.” (nada há no intelecto que não tenha passado antes pelos sentidos). O conhecimento começa pelos sentidos externos (vista, audição, tato, paladar e olfato). As impressões sensíveis geram imagens internas — os chamados phantasmata. Daí, o intelecto agente ilumina essas imagens, produzindo o conceito.

A verdade, então, é definida como: “Adequatio intellectus et rei” (adequação do intelecto à coisa).

Esse movimento filosófico — abstração, iluminação e adequação — ilumina analogicamente o caminho espiritual: Na purificação, retira-se o que obscurece o intelecto espiritual. Na iluminação, clareia-se o que esclarece as imagens armazenadas. E na união, adequa-se plenamente o espírito a Deus.

Na vida espiritual, a purificação consiste na luta contra os vícios e na disciplina dos sentidos. A purificação ativa é o esforço pessoal, a ascese, o combate contra as paixões desordenadas, através do jejum, da mortificação, da penitência corporal — que são, de certo modo, “a oração do corpo”.

A Escritura confirma a necessidade dessa disciplina: “Castigo o meu corpo e o reduzo à servidão.” (1Cor 9,27)

Já a purificação passiva se dá quando Deus permite cruzes e tribulações para purificar a nossa alma. Doenças, contrariedades, fracassos — todos permitidos para conformar-nos a Cristo: “Seja feita a vossa vontade.” (Mt 6,10)

Segundo São João da Cruz, essas purificações são ainda mais preciosas, porque são obra direta de Deus na alma.

A iluminação é o momento em que Deus concede uma compreensão mais profunda das realidades espirituais. Pode ser um despertar para a Santa Missa, um amor intenso pela oração mental, uma fidelidade radical à confissão, uma convicção profunda sobre a centralidade da vida interior etc.

“A lâmpada do corpo é o olho; se teu olho for puro, todo o teu corpo será luminoso.” (Mt 6,22) É quando a alma começa a perceber que a vida espiritual não é acessória, mas essencial.

Daí, entre iluminação e união, os mestres espirituais descrevem um portal doloroso: a Noite Escura.

São João da Cruz distingue a noite escura dos sentidos e a do espírito. Na do espírito, que é a que se dá entre a iluminação e a união, a alma, já purificada, sofre, não por pecado grave, mas por sentir-se inadequada diante da luz divina. É como se a intensidade do amor de Deus queimasse as últimas imperfeições, numa manifestação dolorosa de amor.

É uma purificação positiva, semelhante à experiência descrita poeticamente como “chama viva de amor”.

Finalmente, a união, a adequação plena da alma com Deus.

Não é fusão panteísta, mas perfeita conformidade de vontade. “Já não sou eu quem vive, é Cristo que vive em mim.” (Gl 2,20) É a sétima morada teresiana. A consumação da vida espiritual.

Desde os primeiros séculos, os grandes modelos de santidade (os perfeitos, os unidos) foram os mártires. O Apocalipse fala: “Vi debaixo do altar as almas dos que tinham sido imolados por causa da Palavra de Deus.” (Ap 6,9) Os mártires são considerados os santos por excelência, porque se uniram perfeitamente ao sacrifício de Cristo. As cartas de Santo Inácio de Antioquia manifestam o ardor pelo martírio.
O martírio de São Policarpo de Esmirna é narrado com profunda veneração nas Atas antigas.

O ideal sempre foi alto. A Igreja canonizava aqueles cuja vida manifestava virtudes heroicas.

Para nós, em nossa época, temos o exemplo do grande São Pio X, que se resumiu em quatro pilares: Santa Missa, Breviário, oração mental e Santo Rosário. Para os leigos, pode-se adaptar como: Missa frequente, leitura diária do Novo Testamento, salmo no início e no fim da leitura, meditação diária (10-15 minutos, para começar) e Rosário.

Santa Teresa afirma com vigor: “Quem não faz oração mental todos os dias não precisa que o demônio o leve ao inferno — ele vai sozinho.” 

A vida interior exige método, constância e elevação de horizonte.

Purificação. Iluminação. União. Esse é o caminho clássico da santidade. Não é para desanimar, mas para despertar. Não é para desesperar, mas para ordenar a vida.

Nossa Senhora é o modelo perfeito: “Maria guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração.” (Lc 2,19) Que Ela nos ensine a vida interior verdadeira, profunda, orientada para a união com Deus.


 

Índice das conferências deste Retiro

 

  1. A vida interior;
  2. A vida espiritual e o crescimento nas virtudes;
  3. A viagem, a graça e o crescimento na vida espiritual;
  4. As três idades da vida espiritual;
  5. Oração mental: caminho seguro de crescimento espiritual.

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