A “Lumen Gentium” e a Nova Eclesiologia

Introdução

A Constituição Dogmática Lumen Gentium, promulgada durante o Concílio Vaticano II em 21 de novembro de 1964, apresenta uma nova perspectiva sobre a natureza e a missão da Igreja.

Embora amplamente aclamada por sua abordagem pastoral e inclusiva, ela suscita questões importantes em relação à doutrina católica tradicional.

Este artigo analisa os principais pontos do texto, contrastando-os com o Magistério pré-conciliar e destacando as consequências doutrinárias e pastorais.

Exclusividade da Igreja e Relação com Outras Religiões

Um dos aspectos mais discutidos é a exclusividade da Igreja e sua relação com outras religiões. Lumen Gentium define a Igreja como “sacramento universal de salvação” e afirma que elementos de santificação e verdade podem ser encontrados fora dela. Também afirma que aqueles que ainda não receberam o Evangelho estão, de certa forma, ordenados ao Povo de Deus. Essas formulações, no entanto, contrastam com declarações como “Fora da Igreja não há salvação” (Unam Sanctam, Bonifácio VIII, 1302) e “Somente na Igreja estão os meios de salvação” (Mortalium Animos, Pio XI, 1928).

A relativização da exclusividade da Igreja enfraquece o sentido de urgência missionária e leva ao indiferentismo religioso.

Além disso, o documento utiliza a expressão “subsistit in” para afirmar que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica, ao invés de simplesmente identificá-las como uma única realidade. Essa mudança semântica faz significar que a Igreja de Cristo continua existindo, de alguma forma, fora da Igreja Católica, sendo que o Magistério tradicional sempre ensinou que a Igreja Católica é a única Igreja de Cristo, sem margem para separação entre ambas, como reafirmado em Mystici Corporis (Pio XII, 1943) e Mortalium Animos (Pio XI, 1928).

Ênfase no Mistério Pascal e Redução da Igreja Militante

Outro ponto relevante é a ênfase no mistério pascal e a redução do conceito da Igreja militante. O texto descreve a Igreja como o povo messiânico constituído por Cristo e como sacramento de salvação na peregrinação terrena. Essa visão desvia o foco do papel dos sacramentos e da autoridade eclesiástica, minimizando o caráter combativo da Igreja contra o pecado e os erros.

A Tradição, no entanto, enfatiza que a Igreja é militante, combatendo o mundo, a carne e o demônio (Catecismo Romano, Parte I, Seção IX).

Estrutura Hierárquica e Colegialidade

Quanto à estrutura hierárquica, Lumen Gentium promove a colegialidade episcopal, afirmando que o colégio dos bispos, em união com o Papa, possui supremo poder sobre toda a Igreja. Também apresenta o sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial como ordenados mutuamente.

Esses conceitos diluem a primazia papal e a distinção essencial entre os “sacerdócios”. O Magistério pré-conciliar sempre afirmou que “o Papa possui pleno e supremo poder sobre a Igreja universal” (Pastor Aeternus, Concílio Vaticano I, 1870) e que o sacerdócio ministerial é essencialmente distinto e superior ao sacerdócio comum (Menti Nostrae, Pio XII, 1950).

Ecumenismo e Salvação Fora da Igreja

No campo do ecumenismo, Lumen Gentium adota uma linguagem que encontra elementos positivos em outras religiões, e afirma que aqueles que, sem culpa, desconhecem o Evangelho, podem ser salvos. Embora pastoralmente compreensível, essa abordagem contrasta com o ensinamento de que “Sem fé é impossível agradar a Deus” (Hebreus 11:6), confirmado em Unam Sanctam, além do que a ausência de condenação explícita de erros doutrinários enfraquece a proteção dos fiéis contra heresias.

O Papel dos Leigos na Missão da Igreja

Ademais, o papel dos leigos é exagerado no documento, afirmando que eles tornam a Igreja presente em lugares onde somente eles podem atuarm, uma visão que os equipara ao clero, confundindo os papéis distintos.

O Magistério pré-conciliar sempre ensinou que os leigos devem apoiar a missão do clero, porquanto não podem substituí-lo em sua função essencial (Quanta Cura, Pio IX, 1864).

Visão Sobre a Virgem Maria

Por fim, Lumen Gentium aborda a Virgem Maria, destacando seu papel na economia da salvação, mas evitando usar títulos tradicionais como “Mediadora de todas as graças” e “Co-Redentora”.

Essa suavização contrasta com documentos como Ineffabilis Deus (Pio IX, 1854) e Ad Caeli Reginam (Pio XII, 1954), que exaltam a únicidade de Maria como mediadora entre Cristo e a humanidade.

Conclusão

Em resumo, Lumen Gentium busca atualizar a compreensão da Igreja para o mundo moderno, mas as ambiguidades e inovações apresentadas contrastam com o Magistério pré-conciliar. Ao relativizar a exclusividade da Igreja, suavizar elementos essenciais da doutrina e introduzir expressões como subsistit in, o documento suscita a necessidade de um retorno à precisão doutrinária para preservar a integridade da fé católica.

Este artigo convida à reflexão sobre como harmonizar a pastoralidade com a fidelidade à Tradição, reafirmando a centralidade da Igreja como única guardiã da plenitude da verdade.

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